Conhecido por muitos como “o chef do turbante”, diz que não ter vocação para conseguir uma estrela Michelin, basicamente porque se aborrece se tiver que estar muito tempo a fazer a mesma coisa. Afinal, define-se como “um selvagem... um chacal...”

Nascido na Argentina em 1972, formou-se em jornalismo, uma opção de vida que resultou de uma educação na qual os livros tiveram sempre uma presença muito forte. “Sempre fui um grande leitor. Hoje já não é assim, mas com 11 anos lia um livro por semana. Aliás, se gostasse do livro, tinha obras que lia em três dias, sendo mesmo um leitor compulsivo. Ia no autocarro a ler em pé, na escola continuava a ler no recreio mesmo quando todos estavam a brincar, e a maior parte dos escritores de que eu gostava tinham sido jornalistas. Então, quando tive que escolher um caminho na escola, optei por algo em que pudesse escrever, o jornalismo, e fui mesmo por aí. Trabalhei sete anos num jornal, tive bastante sucesso, mas também percebi que não era aquilo que eu queria pois era uma escrita parecida com o fritar batatas numa cozinha, rotineira”.

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“Não tenho tempo para mais livros!”

Uma das forma pelas quais Chakall divulgou o seu nome foi através da edição de diversos livros que possui publicados em Portugal, mas também oito além-fronteiras, três dos quais na Alemanha e quatro na China, todos diferentes. Um dos livros editados na Alemanha está traduzido em oito idiomas, desde o romeno, sueco, húngaro, francês ou holandês, mas mais recentemente, desde 2014, deixou de editar livros.

“Cansei-me de editar livros por aqui! A editora queria que eu pudesse escrever um livro todos os anos mas na verdade tive que lhes dizer que não porque cansei-me de o fazer. Na Alemanha, um dos livros ali editados não me deu qualquer trabalho pois apenas tive que dar a cara e assinar o trabalho final, mas nem sinto que o livro é meu e também isso me levou a querer parar. Agora tenho algumas ideias para voltar a produzir um livro, mas a verdade é que cada livro é um sacrifício para mim, porque eu não tenho muito tempo, e se não tenho a possibilidade de desfrutar a produção do livro, então simplesmente não o vou fazer.”

De nome próprio Eduardo – Chakall foi uma alcunha ganha na sua infância quando o compararam com aquele animal, sempre solitário e livre, disposto a seguir o seu caminho independentemente do que os outros pudessem pensar –, tem no turbante que usa em todas as ocasiões a sua imagem de marca, algo que, no entanto, surgiu no seu dia-a-dia de forma natural aquando da sua passagem por África, de que nos dará conta mais adiante neste diálogo, aparecendo então sem quaisquer preocupação de ser um símbolo pessoal. Quando regressou a Lisboa, ainda no rescaldo dos atentados do 11 de Setembro, nem podia andar de turbante na rua, mas ao cozinhar com o turbante rapidamente começou a ser identificado como o “chef do turbante”, e a imagem ficou.

Depois de ter chegado à conclusão de que o seu rumo não era através do jornalismo, Chakall deixou o jornal em que se encontrava, saiu da Argentina em 1997, recebeu algum dinheiro por via da saída, isto numa altura em que deixar uma empresa ainda permitia uma verba pela rescisão contratual, e resolveu cumprir um visita a África, continente que sempre o fascinou.

“Quando saí do jornal na Argentina recebi 80 mil dólares pelo sete anos que trabalhei, isto numa altura em que se trabalhava bem e o jornalismo era algo sério, assente em contratos sérios. Tive a oportunidade de seguir para África, algo que fiz um ano depois de estar em Portugal, altura em que tive a possibilidade de ir trabalhar para um restaurante de uma amiga. Eu sabia cozinhar, tinha o know-how da restauração – sou a quarta geração de uma família de donos de restaurantes –, e fui trabalhar para o restaurante A Bicaense, no Bairro Alto. Ali, tive uma oferta por parte da Ana Borges para alguns trabalhos através da Elite Models, entrei em diversos castings, e logo nos cinco primeiros castings em que entrei ganhei todos eles, o que me abriu um caminho próprio. Fiz diversos anúncios emblemáticos em Portugal, como o lançamento da Optimus, ou um anúncio da Super Bock, e também aí pude triunfar, acabando por seguir para África com a dúvida relativamente ao que iria fazer no momento em que regressasse.”

A viagem em África foi uma agradável aventura, mas em termos financeiros revelou-se negativa, isto porque Chakall viria gastar por lá todo o dinheiro que havia trazido da Argentina, acabando por regressar a Portugal “sem dinheiro e endividado”. Foi então necessário apostar naquilo em que conhecera o sucesso, voltou à publicidade, e com o primeiro anúncio realizado pôde pagar as suas dívidas havendo a oportunidade de se relançar de novo, com a restauração a revelar-se como o caminho natural.

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El Bulo... um restaurante diferente

Sonhou em poder ter um restaurante seu na zona de Marvila e, se bem o idealizou, melhor o conseguiu, até porque mais do que um conseguiu ter dois. Ao restaurante El Bulo, o nosso entrevistado juntou posteriormente uma pizzaria que literalmente um refeitório, O Refeitório do Senhor Abel, estabelecimento que funciona no espaço que no passado teve a valência de refeitório para os funcionários dos armazéns vinícolas Abel Pereira da Fonseca. Todavia, é no entanto o El Bulo que transporta a imagem aventureira e irrequieta de Chakall, um restaurante onde as imagens da aventura e nomeadamente da passagem por África estão bem presentes.

Inaugurado em Fevereiro de 2016, este restaurante foi recentemente alvo de obras que aumentou a sua capacidade, não deixando ainda assim de ser acolhedor e agradável. A cozinha, simples e genuína, procura ficar longe de qualquer pretensiosismo, apresentando boas carnes, o bacalhau ou o polvo, entre tantas outras propostas. Recomendamos!

Hoje, com uma filha de três anos, Chakall assume que prefere ficar em Lisboa do que andar por fora. Ainda assim, depois de ter estado muito focado na Alemanha, mas também na China onde se desloca dois meses por ano para gravar programas para a televisão pública chinesa e onde dirige um restaurante de comida portuguesa, acabou por voltar a Portugal quase em absoluto nos últimos dois anos, de algum modo cansado com o ritmo frenético em que por vezes se viu colocado: “Hoje já não preciso provar nada, já realizei programas em quatro continentes em quatro idiomas diferentes, e apetece-me continuar em Portugal onde tenho a minha filha de três anos e onde me apetece estar. Abri um restaurante com a Super Bock na China, de cozinha portuguesa, sou ainda o chefe executivo de um restaurante em São Tomé e Príncipe, na ilha do Príncipe, mas apaixonei-me por esta zona de Lisboa, decidi que um dia que abrisse o meu restaurante iria fazê-lo aqui em Marvila, e cumpri isso mesmo!”

Sempre a empreender, sempre a fazer coisas novas – “Sou do signo Gémeos e preciso de estar sempre em actividade.” –, recusa etiquetas para a sua classificação e à questão sobre se é um chef, um cozinheiro ou empresário, deixa clara a vontade de ser “um pouco de tudo” isso mas em nome próprio e com o seu próprio trabalho: “Em primeiro lugar faço as coisas com o meu próprio dinheiro. Não há sociedades, não há bancos, e faço obras quando há dinheiro.”

Curiosamente, após tanto tempo de actividade, a verdade é que Chakall nunca teve uma estrela Michelin, algo que o nosso interlocutor explica por “falta de vocação para conseguir uma estrela”. “Eu aborreço-me ao estar uma semana na cozinha, aborreço-me se tiver que fazer a mesma coisa todos os dias, e para ter uma estrela, além do talento, há que ter muita perseverança e estar muito focado para aquilo, e eu não me vejo um mês a fazer o mesmo. Além disso, seria necessário ter uma formação específica que não tenho, porque eu sou um selvagem, sou um chacal, sempre fui um selvagem e sempre fiz aquilo que sinto. Aliás, entendo que há dois tipos de pessoas na vida, aquelas que precisam de ir por um caminho, e as que precisam de descobrir o seu próprio caminho, e eu preciso descobrir o meu caminho.”

texto: Jorge Reis | Consilcar Magazine
fotos: Carlos Rodrigues

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