marinho.pinto.mptNum momento em que no PS, vencedor tímido, mas vencedor, das Europeias 2014, anda tudo entretido numa espécie de artes marciais da política , fazendo de António José Seguro o “saco de boxe” onde todos querem descarregar frustrações, sobra espaço e tempo para Marinho Pinto prolongar o momento de prazer que, afinal, não se resumiu à noite eleitoral.

Sete por cento dos votos e o MPT até conseguiu chegar ao segundo eurodeputado eleito. De repente, um partido passa da condição de residual (0,66 por cento nas europeias de 2009) ao estatuto de parceiro possível (para alguns desejável) em eleições futuras. E tudo por causa de um homem só, figura mediática que invadiu o palco da política depois de dois mandatos como bastonário da Ordem dos Advogados.

Marinho Pinto, advogado, sabe lidar com as artes de tribuno, o Marinho Pinto, jornalista, conhece as voltas da comunicação. E Marinho Pinto, político, foi fazendo aquilo que os políticos há muito deixaram na gaveta – dizer o que pensa. E, pelos vistos, o politicamente correcto está a deixar de ser politicamente eficaz.

À esquerda e à direita insistem em colocar-lhe o rótulo “populista”, à esquerda e à direita recusam perceber a origem do fenómeno. É certo que relativamente à vida quotidiana, Marinho Pinto assume posições conservadoras, é igualmente certo que deu voz às mais vulgares condenações da promiscuidade entre público e privado que invadiu a política e que esse é, nos tempos que correm, o caminho mais fácil para chegar ao coração dos eleitores. Mas, verdade seja dita, Marinho Pinto soube ser diferente, num universo de candidaturas onde os candidatos tendem a ser todos iguais no comportamento politicamente correcto e no discurso contido, cauteloso e sem chama.

Em entrevista ao DN, o candidato que levou, de um momento para o outro, o MPT dos 0,66 aos 7,14 por cento diz que é de esquerda e compara a sua relação com o partido a uma união de facto. Ou seja, uma vez mais assume que essa relação pode dar em casamento ou em separação, falando aos seus eleitores sem papas na língua, sem receio de prejuízos futuros.

Marinho Pinto distinguiu-se dos seus pares por ser genuíno.

É só fazer like…

E pronto. O PS já tem o que mais lhe faltava. Além de um secretário-geral tem um pretendente ao “trono” socialista e vai, seguramente, ter um congresso antecipado.

Nunca se tinha visto uma coisa assim. Um líder passa dois testes eleitorais e instala-se um súbito desejo de o ver apeado.

António Costa assumiu a condição de “desafiante” e logo surgiram páginas e páginas no Facebook em apoio do presidente da CM Lisboa. Com ele estão os seus apoiantes naturais mas também figuras que deixaram de ser figuras no xadrez do Largo do Rato, apoiantes de Sócrates (apesar de o comentador Sócrates ter dito: “Como é que se discute um líder que ganha? Não faz parte do que é normal em política”) e cata-ventos de diversas tendências.

Previsivelmente, Seguro vai ele próprio sustentar que é mais honrosa a frente de batalha do que a paz podre, mas guardará a opção congresso para o local que considera certo, a comissão nacional a realizar sábado. Sabe que tem com ele grande parte das estruturas distritais e uma grande parte dos novos militantes. Costa, que conta com o congresso antecipado por se tratar de uma questão política e não resolúvel em processo administrativo, tem uma imagem de político vencedor e um trunfo extra – é tido como figura capaz de atrair eleitorado fora da área socialista.

Qualquer que seja o desfecho desta contenda, o PS arrisca-se a escrever direito por linhas tortas…

CarlosTrigo

Carlos Trigo

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