presepio3No ano em que o Cante Alentejano ganhou estatuto de Património Mundial, os portugueses viram sair a troika, mas permaneceram em crise. Crise económica e crise emocional. Em 2014 , os portugueses experimentaram os efeitos de uma mistura explosiva (negócios, política, justiça…) e terminam o ano inebriados com o excesso de informação a digerir.

O BES, um banco com história, terminou dividido em “bom” e “mau”. Com um Novo Banco no mercado, mas à venda pela melhor oferta, a “guerra” familiar dos Espírito Santo não só arrasou um negócio centenário como atirou a “roupa suja” para lavandarias públicas – imprensa e comissão parlamentar da Assembleia da República. E talvez para o ano os tribunais tratem do resto.

Numa história de contornos ainda por clarificar, mas com um batalhão de prejudicados, o BES é o “banco do ano” mesmo depois fechar portas e reabrir com outro nome e outra “governance”. Não será, contudo, no ano em curso que se percebe quanto se paga, mas já se desfizeram as dúvidas sobre quem assume a conta.

“O Banco Portugal e o Estado vão ter que pagar indemnizações bilionárias para ressarcimento dos prejuízos causados pela loucura da "resolução" do BES. Se houvesse um mínimo de bom senso os administradores do Banco de Portugal demitiam-se imediatamente e o governo tomava a iniciativa de os substituir. No que se refere ao BES, o melhor caminho seria o de negociar uma solução que permita voltar com tudo atrás... O risco sistémico pode começar hoje. Se se aplicarem as mesmas regras e se se aprofundarem os mesmos raciocínios aos demais bancos, vai tudo para o charco. Acho prudente que encontremos lugares seguros para depositar o nosso dinheiro. Há uma enorme diferença entre banqueiros e bancários. Só temos bancários e de má qualidade...” – Miguel Reis, advogado, no Facebook

E, com juízes e tribunais em alta rotação, o ano trouxe-nos mais dois casos mediáticos – vistos gold, envolvendo altos quadros da administração pública e provocando a demissão de um ministro; e Sócrates, um ex-primeiro-ministro que provoca amores e ódios, quer esteja em liberdade ou, como é o caso presente, em prisão preventiva. Corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal, indícios que o levaram à Justiça, com direito a detenção mediática no aeroporto e a prisão preventiva no, agora também mediático, Estabelecimento Prisional de Évora.

Mas, no que à Justiça se refere, o ano de 2014 tem outras histórias. As falhas informáticas no CITIUS prolongaram-se e deixaram o sector à beira do ataque de nervos. E, neste mesmo ano, um outro sistema informático, o da Educação, resolveu também entrar em colapso, resultado: infindáveis cenas a roçar o hilariante e atrasos incompreensíveis na colocação de professores.

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Para os jornalistas, num ano marcado por mais despedimentos nos grupos de Comunicação Social, o ano termina à porta da cadeia. Televisões, rádios e jornais arriscam-se a passar o Natal à porta do Estabelecimento Prisional de Évora para registar o momento de cada visitante de José Sócrates.

Na Política, com uns e outros mais ou menos marcados pelos escândalos resultantes das “intromissões” da Justiça, o ano fica marcado pelas directas no PS, um partido que se sente mais seguro com a liderança de António Costa, tendo em conta as sondagens, pelos altos e baixos no relacionamento entre os partidos da maioria e também pela anunciada “saída de cena” de Alberto João Jardim da liderança do Governo Regional da Madeira. Este último capítulo da longa história de Jardim na liderança madeirense poderá significar um 2015 mais animado em Lisboa, caso se confirme a possibilidade de ocupar um lugar na bancada social-democrata na Assembleia da República.

Numa tendência que vem de anos anteriores, o ambiente económico, muito marcado pelas privatizações, parece afastar os portugueses cada vez mais dos sectores sensíveis. O jornal espanhol El Confidencial, num artigo sobre o vizinho ibérico, titula: “Portugal, a nova colónia de Angola”.

“Os nossos partidos políticos têm sobrevivido porque têm sido federadores e integradores dos chamados movimentos sociais, funcionando como correias de transmissão ao contrário. Daí que os políticos se tornem mobilizadores egoístas, canalizando os protestos para o interior do sistema político” – Adelino Maltez, professor Universitário, no Facebook

Em alta continua o Turismo, sector cada vez mais importante na débil economia nacional. Em particular o Alentejo, um destino distinguido em termos internacionais, desde o britânico The Guardian ao norte-americano USA Today.

E 2015? Será o ano da fiscalidade verde ou o ano da desdita dos que trabalham com base nos ditos “recibos verdes”? Lá mais para a frente perceberemos.

Certo é que, num país de turismo, património e gastronomia, Reguengos de Monsaraz recebe o estatuto de “Cidade Europeia do Vinho”. E, nestas coisas de festas felizes, diz o povo, que “com água ninguém canta”…

Fotos: Em cima - Presépio de artesão - Museu de Artesanato e Design de Évora; Em baixo - D.R. | Retirada do Facebook

CarlosTrigo

Carlos Trigo

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