Claros Breus é o mais recente espectáculo da bem conhecida de todos Maria Bethânia, um trabalho que trouxe a diva a Portugal em Setembro tendo visitado com este espectáculo os públicos de Lisboa e Porto. Acompanhada pelo maestro baiano Letieres Leite (direcção musical e arranjos), Jorge Hélder no contrabaixo e o único que já trabalhou com Bethânia antes, ainda Carlinhos 7 Cordas nos violões de 6 e 7 cordas, também Pretinho da Serrinha nas percussões acústica e electrónica, e os também baianos Marcelo Galter, no piano e sintetizadores, e Luisinho do JêJe, nas percussões acústica e electrónica, Maria Bethânia permitiu noites de grande qualidade para o público luso, nomeadamente na sua passagem por Lisboa em duas datas, com o espectáculo que acompanhámos para o canal de Cultura do LusoNotícias.

A direcção e cenário está a cargo de Bia Lessa, o mesmo nome que, com Binho Schaefer assina o desenho de luz, ficando o figurino de Maria Bethânia a cargo de Gilda Midani, para um espectáculo que, no Coliseu de Lisboa, arrancou de forma algo sombria, em contraste com o vermelho que vestia de pés descalços, num palco ladeado por inúmeras velas acesas.

“Enfim sós” foram as palavras da diva quando se sentava e se dirigia ao seu público, contando histórias e declamando poesia por entre as músicas que nos ofereceu, na sua voz eloquente que parece cada vez melhor com o avançar da idade que lhe tem sido suave.

Do alinhamento fizeram parte os temas “Drama”, a inédita “A flor encarnada”, de Adriana Calcanhotto, “Sangrando”, “De todas as maneiras”, “Pernas”, “Sampa”, “A beira e o mar”, “Grito de alerta” e ainda “Olhos nos olhos”, entre outros, para uma prestação em que a cantora recordou saudosamente as noites boémias do Rio, quando os músicos actuavam em clubes e iam ouvir-se uns aos outros.

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A indumentária de vermelho passou ainda a meio do espectáculo ao tom de branco brilhante, mas sempre descalça, tendo o cenário passado de vermelho e negro a azul. E no final, ou mesmo já depois do “final” do espectáculo, Maria Bethânia ainda voltou ao palco para cantar Negue (de Adelino Moreira e Enzo de Almeida Passos) e Encanteria, de Paulo César Pinheiro, temas que encerraram a noite apesar dos muitos aplausos que em vão tentaram o regresso da diva. Certo é que as luzes se acenderam mesmo, e o final da noite era mesmo ali.

Maria Bethânia, cantora e compositora brasileira que conta já com 73 anos, declarou um dia querer ser “tempestade e ventania, andar pela cidade, embriagando-se de poesia e bebendo a claridade da luz do dia”, tendo para já conseguido encher os corações de todos os que a foram ouvir no Coliseu dos Recreios em Lisboa. Nas suas palavras, “o palco não mente, quando canta só canta em verdade, apenas canta as músicas e os versos em que acredita”.

Maria Bethânia Viana Telles Velloso, nasceu em 18 de junho de 1946, na cidade de Santo Amaro na Bahia, tendo ascendência indígena da etnia pataxó por parte de sua bisavó paterna, mas também raízes afro-brasileiras e portuguesas, por parte do seu pai. Caetano Veloso, seu irmão, foi o responsável pelo seu nome, inspirado numa melodia, a valsa Maria Betânia, do compositor Capiba, na altura um sucesso na voz de Nélson Gonçalves, sendo Maria Bethânia membro de uma família de artistas, irmã da escritora Mabel Velloso, do cantor, compositor e poeta Caetano Veloso, e tia dos cantores Belô Velloso e Jota Velloso.

Desde cedo que o seu sonho era ser atriz e em 1960 mudou-se para Salvador com a intenção de terminar os estudos, tendo vindo a integrar o corpo de alunos da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, passando a frequentar as inúmeras exposições de artes plásticas, os mais variados musicais. Caetano Veloso é chamado, em 1963, para compor a banda sonora da peça Boca de Ouro, do dramaturgo Nélson Rodrigues e Bethânia, a convite do seu irmão, interpretou as músicas que iriam dar corpo à peça, naquele que foi o seu primeiro trabalho profissional na sua longa carreira de música. Resta-nos esperar que continue a visitar o público português com a sua voz marcada por um timbre bem peculiar... nós agradecemos!

Ana Cristina Augusto

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