Regressou a Portugal na passada semana, para duas brilhantes noite de espectáculo no Salão Preto e Prata do Casino Estoril, o violinista libanês de ascendência arménia Ara Malikian, ele que pela segunda vez se apresentou perante o público português, agora já rendido à qualidade que este músico evidenciou na primeira passagem por Portugal. Para estes concertos, as expectativas eram altas após termos conhecido Ara Malikin em Maio de 2018, também no Salão Preto e Prata, e o artista não desiludiu o público do Casino Estoril que mais uma vez se rendeu ao grande violinista, à sua música e às suas magnificas histórias.

Nascido em 1968 nio Líbano, Ara Malikian é um dos mais virtuosos violinistas da actualidade, tendo estado entre nós para dois concertos no Salão Preto e Prata do Casino do Estoril, a 10 e 11 de Maio. “Royal Garage World Tour” é o nome do novo projecto de Ara Malikian que apresentou no Estoril, através do qual homenageia as bandas de garagem que tanto o influenciaram.

Confrontado desde cedo com a guerra no seu país, aos 10 anos, durante a guerra do Líbano, Ara Malikian teve no seu pai o principal impulsionador da vontade em explorar a essência dos sons destes lugares, onde a maioria das bandas começaram. Mais tarde, o artista descobriu por ali o encanto e os sons característicos, assumindo as garagens como “espaços de cultura, partilha musical e lugares de criação artística”.

Agora com 50 anos de idade, Malikian já gravou mais de 40 discos, tendo formado a sua própria orquestra e participado na produção de inúmeros espectáculos. O violinista rege-se por duas premissas de que não abdica: a música é para todos e todos devem ter-lhe acesso, quer seja clássica, quer seja popular. Por outro lado, e porque a música está em constante mutação, deverá absorver sonoridades de diferentes culturas, assimilando-as para a sua própria linguagem e composições.

Ara Malikian já se apresentou por todo o mundo, a solo ou a convite de diferentes artistas, compositores e orquestras. O seu reportório inclui muitas das grandes obras escritas para violino, tendo lançado ainda peças de compositores contemporâneos como Franco Donatoni, Malcolm Lipkin, Luciano Chailly, Ladislav Kupkovic e Loris Tjeknavorian.

Na noite de 10 de Maio no primeiro dos dois concertos do artista em Portugal nesta segunda passagem pelo nosso país, muitas foram as histórias partilhadas com o público, desde a sua iniciação em garagem, aquando da guerra, quando o seu pai o convenceu a refugiar-se numa garagem, seduzindo-o com o glamour de também os Beatles terem tocados em garagens. Com humor, Ara Malikian confessou que não encontrou os Beatles nessa garagem, mas antes alguns familiares e vizinhos que também por ali se refugiavam.

Exímio contador de histórias, Ara Malikian encantou mais uma vez a plateia com episódios vividos na Alemanha, nomeadamente quando, de forma caricata, por desconhecimento da língua alemã, se viu confrontado com a convicção de todos de que ele seria judeu e a pessoa ideal para animar musicalmente os casamentos da comunidade judaica, história que permitiu o mote para a melodia “Pisando flores”.

As histórias continuaram ao longo da noite, dando conta desde a sua ingressão num grupo musical norueguês em terras de Sua Majestade (Inglaterra) onde, para não “destoar” e como não tinha propriamnte a aparência física de um qualquer norueguês, assumiu a personagem de um castor. De tal forma assimilou a personagem que a determinada altura interiorizou ser realmente um castor, obrigando-se a uma terapia inevitável. De outras histórias deu igualmente conta, Ara Malikian, relatando os tempos em que viveu em Espanha, onde integrou uma orquestra em que apenas tocava num fosso, sem poder mostrar a sua garra em palco.

Uma das histórias mais caricatas contou-a a propósito de uma viagem de avião em que se cruzou a bordo com a cantora Bjork. Pretendendo que a islandesa reparasse em si, Ara Malikian tudo fez para que tal acontecesse, nomeadamente ao comer arenque que lhe provocou um ataque alérgico que obrigou o avião a aterrar de emrgência e sem que Bjork reparasse nele.

Outra aventura contada por Malikian lembrou uma aventura de um grupo de jovens entre os quais o próprio Malikian, que “desviaram” o carro dos pais para se deslocarem a um concerto sem que nenhum deles possuísse carta de condução. A todos estes episódios relatados por Ara Malikian o público respondeu com boa disposição e aplausos, servindo cada uma daquelas histórias de alavancagem para as diversas músicas, desde Tchaikovsky a Bjork e a Guns & Roses.

Divertidas e improváveis, as histórias de Ara Malikian, talvez um pouco “exageradas” na sua essência, a todos e nomeadamente a nós permitiram uma boa disposição, sem nos importamos nem um pouco com um ou outro exagero nos relatos do músico.

Virtuoso, excelente, arrebatador, comunicativo... Ara Malikian,  que pelo meio teve a oportunidade de tocar por entre a plateia do Salão Preto e Prata, fez assim a sua segunda passagem por Portugal com a mesma qualidade que já evidenciara antes, e que acreditamos que poderá por certo continuar no futuro, quando esperamos que nos visite de novo para nos trazer mais divertidas histórias à mistura com muita música de qualidade interpretada ao seu jeito bem peculliar.

reportagem: Ana Cristina Augusto
fotografia: © Casino Estoril

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