Sendo certo que a música dificilmente tem cor, a verdade é que Rui Massena e os seus músicos permitiram na última quinta-feira, 18 de Abril, aquilo a que se poderá chamar de um espectáculo em tons de Preto e Prata, as cores dominantes do palco do Salão como mesmo nome, no Casino Estoril, onde apresentou o seu mais recente disco, “III”, em formato Rui Massena Band.

Do alinhamento, o maestro e a sua banda trouxeram-nos muitos estados de espírito e emoções através de músicas como “Angústia”, “Resistir”, “Meditação”, “Lazy”, “Alento”, “Estrada” ou “The tree”, entre muitas outras melodias, havendo mesmo espaço para a valsa, num momento em que Rui Massena desafiou o público a dançar. O maestro, aliás, entregou-se ao público, que por sua vez, se entregou às notas do maestro, imerso na sua música com a sua postura, já habitualmente irreverente, imprevisível, criativo, sensível e talentoso.

O seu mais recente trabalho reúne, musicalmente, tudo ou quase tudo do que o maestro, compositor e músico, já fez ao longo do seu percurso, tendo sido gravado em Berlim e no Porto. “III”, de Rui Massena, já conquistou o selo internacional da prestigiada Deutsche Grammophon, talvez a mais importante marca do universo da música erudita, levando mesmo Massena a falar de “um grande avanço” quando explica a natureza do disco que agora lança.

Neste Ensemble, Rui Massena mantém a “tranquilidade” que já caracterizava o seu primeiro disco de originais, mas agora num tom diferente com toda uma envolvência orquestral que acompanha o pianista e maestro.

Sobre Rui Massena, pianista e maestro, conhecida figura do panorama cultural nacional que ajudou a transformar Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura num estrondoso caso de sucesso, ficou por isso ligado como programador a “Guimarães 2012”, tendo deixado sementes para o futuro com a Fundação Orquestra Estúdio, uma instituição singular que conseguiu um tremendo êxito de bilheteira e onde se combinam talentos de mais de duas dezenas de nacionalidades. Aí é possível ver marcas do génio único de Rui Massena: um maestro não se limita a dirigir as diferentes secções da orquestra, mas tem que saber harmonizar diferentes posturas, culturas e linguagens.

Essa visão tem distinguido o trabalho do maestro Rui Massena. Fora de portas foi maestro convidado principal da Orquestra Sinfónica de Roma, durante as temporadas 2009/2011. Pode atribuir-se-lhe também a proeza de ter sido o primeiro maestro português a dirigir no Carnegie Hall em Nova Iorque (2007), dois exemplos da sua capacidade de extravasar as nossas fronteiras. Por cá, embarcou de corpo e alma na aventura Expensive Soul Symphonic Experience, um espectáculo onde uma orquestra clássica encontrou espaço ao lado do moderno hip hop dos nortenhos Expensive Soul, e que rendeu um DVD de sucesso (o mais vendido em Portugal em 2012).

De qualidade inegável, não faltam troféus a Rui Massena. A Academia de Artes e Ciências Brasil atribui-lhe, em 2013, a Medalha de Mérito Cultural, tal como a sua cidade natal, Vila Nova de Gaia, que lhe entregou a Medalha de Ouro de Mérito Cultural e Científico. Já o festival Rose d’Or, em Berlim, em 2014, fez da sua série televisiva, “Música Maestro”, finalista na categoria de Artes, reconhecendo assim o seu enorme valor cultural.

Todos estes prémios e distinções reconhecem, afinal de contas, um percurso rico e de total entrega à causa da música, um percurso que o viu a abraçar grandes causas e desafios – foi Director Artístico e Maestro Titular da Orquestra Clássica da Madeira entre 2000 e 2012 – e que lhe permitiu trabalhar com nomes tão sonantes como os de Guy Braustein, José Carreras, Ute Lemper, Wim Mertens, Ivan Lins, José Cura ou Mário Laginha e Bernardo Sassetti.

Cumpriu assim Rui Massena as expectativas daquela que foi, de facto, uma noite de pura poesia, permitido através de sons, nos tons, mas também nos palusos, permitidos pelo palco cultural que é o Salão Preto e Prata do Casino Estoril.

texto: Ana Cristina Augusto
fotos: © Casino Estoril

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