Para três noites de espectáculo ímpares com uma sonoridade muito própria como só eles conseguem, os Gipsy Kings subiram ao palco do Salão Preto e Prata do Casino Estoril nos dias 15, 16 e 17 do corrente mês de Fevereiro, actuando ali com a maestria de que são capazes e levando o público ao rubro, como pudemos constatar na noite de estreia desta banda — Gipsy Kings feat Andre Reyes —, formada nas cidades francesas de Arles e Montpellier, composta por ciganos membros de duas famílias, os Reyes e os Baliardo, parentes do grande músico flamenco Manitas de Plata.

Tendo conquistado o seu público por todo o mundo, os Gipsy Kings têm uma sua sonoridade única e irresistivel através de uma “mescla” de estilos do flamenco tradicional à pop ocidental e aos ritmos latinos. Foi com esta sonoridade, aliás, que esta banda teve oportunidade na noite de 15 de Fevereiro de aquecer o Salão Preto e Prata, não faltando no alinhamento os êxitos de sempre como “Bamboleo”, “Bem, Bem Maria”, “Djobi Djoba”, “Volare” e “ Baila Me”, entre muitos outros, bem como as performances de “My Way”, de Frank Sinatra, e ainda, na segunda música do encore, a finalizar a noite, a interpretação de “Hotel Califórnia”, dos Eagles.

Andre Reyes, um dos fundadores dos Gipsy Kings, acompanhado por Tonnino Baliardo, Chico Castillo, Mario Reyes e os restantes músicos, contagiaram o público, desafiando tudo e todos logo após a primeira música a fazerem a festa e a levantarem-se das cadeiras para dançar em uma noite única. O ritmo evocava a história dos Gipsy Kings, que trocaram cavalos e caravanas por carros e aviões e que teve início quando os pais dos membros do grupo fugiram da Catalunha, na Espanha, para o sul da França, durante a Guerra Civil de Espanha (1936-1939).

Na década de 1960, os primos Jose Reyes e Manitas de Plata formaram um duo de rumba flamenca de grande sucesso. Na década seguinte, Jose Reyes junta-se aos seus filhos, Nicolas e Andre, e forma a banda Los Reyes, que tocava em casamentos, festas, festivais e nas ruas das cidades do sul da França. Com a morte de Jose Reyes, em 1979, Tonino Baliardo, filho de Manitas de Plata, junta-se ao grupo, acabando o nome da banda por ser mudado para a sua tradução para o inglês, acrescido do adjectivo “gipsy”, resultando no hoje conhecido Gipsy Kings ("Reis Ciganos").

A partir dali, os Gipsy Kings ganharam grande notoriedade com o seu álbum homónimo “Gipsy Kings” (1987), no qual havia vários sucessos do grupo, como "Djobi Djoba", "Bamboleo" e "Un Amor". A música "Volare", no seu segundo álbum Mosaique, é uma versão do hit "Nel Blu Dipinto Di Blu", do italiano Domenico Modugno.

Os Gipsy Kings foram e são ainda hoje muito populares em França, independentemente do criticismo dos puristas flamencos, garantindo ainda enorme sucesso na maioria dos países da Europa Ocidental, especialmente em França e no Reino Unido. Em 1989, o álbum “Gipsy Kings” foi lançado nos Estados Unidos, onde se manteve por 40 semanas nos tops musicais, sendo um dos raríssimos álbuns em espanhol a conseguir tal proeza.

Em Janeiro de 1991, Chico Bouchikhi deixou a banda, no mesmo ano em que os Gipsy Kings tocaram guitarra flamenca para a versão de “Long Train Running” (música original dos Doobie Brothers), interpretada por Bananarama, usando o pseudônimo "Alma de Noche" ("Alma da Noite"). Em Agosto de 1992, Andre Reyes deixou a banda, surgindo mais tarde a versão cover do grupo para a música “Hotel California”, um excelente exemplo do chamado "solo rápido de guitarra clássica" e do "dedilhado flamenco" (esta versão aparece no filme dos irmãos Coen intitulado The Big Lebowski, de 1998).

No site da banda podemos ler: “Even though it’s been 25 years, we want to keep on making new music because it’s our life, it’s who we are!”

A frase é de Nicolas Reyes e diz qualquer coisa como “Mesmo pensando que passaram 25 anos, queremos continuar a fazer a nossa música e novas músicas porque é essa a nossa vida. É isto aquilo que somos!”.

E ainda no site acrescenta Reyes: “But I think there will be a time when we pass down the Gipsy Kings to our sons.” (“Mas eu penso que chegará o dia em que iremos passar os Gipsy Kings para os nossos filhos.”)

Quanto a nós, apenas esperamos que a banda se mantenha com a sua postura de alegria e dança e continuem a reinar com os seus ritmos. Afinal, a julgar pelo que fizeram na noite de 15 de Fevereiro, sem qualquer dúvida, foram (e são) “Reis”.

texto: Ana Cristina Augusto
fotos: © Casino Estoril

Pin It