×

Mensagem

Failed loading XML...

O desafio foi feito ao fadista Carlos Leitão para uma conversa porventura algo “fora da caixa” mas bem colocada com o Fado no meio dos automóveis, um trabalho publicado na revista Consilcar Magazine, publicação trimestral da qual extraímos agora este diálogo para o canal de Cultura do portal LusoNotícias.

Carlos Leitão, fadista e ex-jornalista, define-se como “um tipo muito pacato, de muito recato, que nasceu em Lisboa há 38 anos, mas que na realidade gostava de ter nascido em Arraiolos”, a terra de família e que considera, na verdade, como a sua terra. Cedo quis ser jornalista, trabalhou para isso e foi jornalista durante uma série de anos, vindo a “zangar-se” com Lisboa e com o jornalismo, acabando por rumar ao Alentejo, “onde a música ganhou uma dimensão que até aí não tinha.”

Assumindo um gosto particular por Lisboa, cidade que deixou para rumar a uma realidade diametralmente oposta onde ganhou desde logo uma enorme qualidade de vida que desconhecia, diz ter sido “de modo natural” que o Alentejo veio a ganhar um peso gigante na sua vida. Ainda assim, diz, a paixão de Carlos Leitão pela grande planície alentejana surgiu algo tarde, ele que na sua juventude visitava aquela região “duas vezes por ano, no Verão e no Natal, e mais do que duas semanas já era um suplício assinalável”.

01CR1603

01CR1608

01CR1610

01CR1612

O Alentejo surge assim como a fronteira no caminho de Carlos Leitão entre o jornalismo e o fado: “Nos primeiros anos que fui para o Alentejo ainda consegui ter o melhor de três mundos. Consegui conciliar a qualidade de vida que só o Alentejo permite, o meu trabalho como jornalista freelancer, e conciliar-me com a música que ganhou uma dimensão realmente importante na minha vida, porque até aí eu queria ser jornalista e não músico.”

O jornalismo foi, de algum modo, “conduzido” entre automóveis, tendo Carlos Leitão chegado ao jornalismo automóvel depois de breves passagens pela rádio mas também pelo jornal A Bola. Em 2003, avançou para a escrita em redor dos automóveis, deixando uma confidência: “Mesmo quando escrevi sobre automóveis, e podendo parecer uma heresia dizer isto, nunca fui um fervoroso adepto do mundo automóvel. Gosto imenso de conduzir, adoro automóveis, mas nunca foi um desígnio. O meu desígnio no jornalismo sempre foi o jornalismo desportivo e nomeadamente o futebol, e os automóveis surgiram assim um pouco às cambalhotas”.

A determinada altura, por não reconhecer “nobreza” no jornalismo, Carlos Leitão zangou-se com o jornalismo e apontou baterias em definitivo à música. Em dois anos no Alentejo escreveu um disco inteiro, apresentado em 2003, “muito angustiado, muito denso, pesado, porque no Alentejo, a mesma componente de beleza que todos lhe reconhecem, tem um lado perverso e castrador, que se não estivermos emocionalmente bem nos pode levar para baixo.”

 “Do quarto” foi o primeiro trabalho de Carlos Leitão, com o nome justificado por ser o Alentejo o seu quarto, o seu refúgio, no qual entrámos para escutar “Agora que não sabes mais de mim”, com letra do próprio Carlos Leitão e música de Alfredo Marceneiro, fado que também aqui poder acompanhar em vídeo, publicado no nosso canal do Youtube com a entrevista na íntegra.

01CR1628

01CR1620

01CR1632

01CR1642

O diálogo com Carlos Leitão continuou com um olhar mais forte sobre a sua carreira agora enquanto fadista, que teve como ponto de viragem um concerto em 2006 em Amesterdão. “Quando vínhamos no voo para Lisboa, o Carlos Meneses, o meu melhor amigo de há muitos anos, lançou-me um repto: Isto é o sinal claro que tens de apostar nisso!”

O primeiro disco surgiu assim ainda antes de se convencer que a música era o caminho, com um grande impulso dado por outro amigo: Custódio Castelo. Depois, um convite de Mário Pacheco para integrar o Clube de Fado coincidiu com o regresso a Lisboa em definitivo e a opção pela música fica por essa altura bem vincada, avançando Carlos Leitão para um novo disco – “Sala de estar” –, em Março de 2016, dois meses depois do falecimento do seu pai.

Antes mesmo de um novo tema, agora da “Sala de estar” – Carlos Leitão cantou “O telefonema”, com letra de Carlos Leitão e música de Daniel Gouveia, acompanhado por Bruno Chaveiro na guitarra portuguesa e José Quaresma na viola –, o diálogo é rematado com uma reflexão que Carlos Leitão nos deixa sobre a importância das coisas: “Isto é tudo muito volátil e muito efémero e muito mais importante do que sermos um grande músico ou um grande jornalista é sermos uma boa pessoa. Se o formos, o resto virá... ou não... mas se não vier estaremos de consciência tranquila e tudo o que vier é ganho!”

entrevista: Jorge Reis
fotografia: Carlos Rodrigues
vídeo: Carlos Casimiro

01CR1635

01CR1658

01CR1649

Pin It