A mitica banda escocesa The Jesus And Mary Chain passou esta semana por Portugal, com dois concertos em Lisboa e Porto, nomeadamente o primeiro no Coliseu de Lisboa onde o canal de Cultura do portal LusoNotícias pôde acompanhar a sua actuação, com os The Jesus And Mary Chain a a tocarem perante uma plateia de gente crescida, maioritariamente, onde o preto saiu das gavetas e dos armários para ouvir e dançar ao som da banda que marcou uma geração.

Perante um simples jogo de luzes sobre o palco, The Jesus And Mary Chain mostraram confiança apostando na voz inconfundível de Jim Reid e em melodias que continuam capazes de se fazerem ouvir ao seu próprio ritmo. As luzes em palco ofuscavam a plateia, pouco mostrando se a banda soube ou não envelhecer fisicamente, mas a voz essa continua no tom certo, não deixando margens para dúvidas que os The Jesus And Mary Chain estão vivos e alinhados no seu habitual registo.

Com um simples “olá, boa noite” por Jim Reid, perante uma sala cheia, teve início o concerto que nos trouxe alguns temas novos mas as memórias dos êxitos da banda. A abertura do concerto deu-se com “Amputation”, uma das canções novas, mas foi ao som de “April Skies” e “Head On” que foi dado o mote para aquilo que viria. Apresentam-se agora, Jim e William Reid, mais maduros e mais velhos, naturalmente, mas também reinventados sem perder a essência que sempre os caracterizou.

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“Some Candy Talking”, “Far Gone And Out”, “Snakedriver” e “All Things Pass” constituiram o alinhamento de uma noite em Lisboa no final da qual houve espaço para se ouvir “Reverence”, caótica, niilista, com sede de morte, menções a Cristo e a John F. Kennedy. Seguiu-se um encore de cinco músicas onde foi possível escutar “Just Like Honey”, canção que deu a conhecer os escoceses aos seus fãs mais novos, após a inclusão em Lost In Translation (2003), a magnífica “In a Hole” e o delírio maquiavélico de “I Hate Rock N' Roll”.

Nesta passagem pelos palcos lusos, a banda escocesa dos irmãos Reid apresentou em Portugal o seu mais recente trabalho, "Damage and Joy" (2017), naquela que foi uma oportunidade de rever esta mítica banda dos anos 80, muito acarinhada pelo público. Após 19 anos sem novas edições e depois de terem passado pelos festivais NOS Alive e Vilar de Mouros, a banda formada pelos irmãos Jim e William Reid continua a apresentar-se como uma banda de rock alternativo da Escócia, com músicas compostas pelos dois irmãos, uma banda formada em 1984 e que voltou aos palcos em 2007, após uma pausa de oito anos.

Jim e William Reid acabarm por ficar conhecidos por unir melodias inspiradas no rock dos anos 60 (The Velvet Underground, Beach Boys, The Who) ao som sujo e distorcido criado com pedais e amplificadores. Os shows ao vivo eram notórios pela indiferença da banda em relação à plateia, nos quais Jim Reid chegava a tocar de costas para o público e alguns espectáculos duravam apenas dez minutos. No fim dos anos 80, a Universidade Politécnica de Londres foi palco de uma revolta do público contra a banda, com os pagantes a destruir o auditório da Universidade, fruto de uma onda de violência que expôs os irmãos Reid aos holofotes da imprensa especializada.

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A banda acabou assim por servir de inspiração para o shoegaze, apesar de eles próprios não fazerem parte daquele género, chegando por aquela altura o que parecia ser o final efectivo dos The Jesus and Mary Chain em 1999, anunciado após uma série de desavenças entre Jim e William Reid. A banda, contudo, resistiu à erosão do tempo e por via disso pudemos acompanhar agora este concerto de excelente qualidade.

De regresso à prestação da banda no Coliseu de Lisboa, o destaque para a execução da música "Just Like Honey", que contou com a participação especial da atriz Scarlett Johanson nos vocais de apoio. Este tema, aliás, chegou mesmo a ser escolhido para o filme "Encontros e Desencontros", dirigido por Sophia Coppola e protagonizado por Scarlett Johanson.

Chegando ao final, este concerto deixou ainda assim um sabor a pouco... mas soube tão bem!

Ana Cristina Augusto

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