Como primeira declaração da equipa de reportagem do canal de Cultura deste portal LusoNotícias, não era esperado de todo a mistura improvável de Bach, David Bowie, Paganini e Radiohead num só espectáculo. Todavia, Ara Malikian, que na última quinta-feira actuou no Salão Preto e Prata do Casino Estoril, conseguiu isso e muito mais, com uma enorme maestria e maior ainda boa disposição, contagiando tudo e todos com a sua música mas também com as suas histórias.

Pelas 22h daquela quinta-feira, 24 de Maio, o público do Casino do Estoril prepara-se para ouvir um grande violinista. Ara Malikian e os seus músicos apresentam-se em palco com um visual pouco típico do esperado concerto de música clássica, ou pelo menos perto disso, surgindo em palco vestidos maioritariamente de preto, envergando couro e cabedal, com um “look” bem mais adequado ao de uma banda de rock. Lado a lado com Ara Malikian, seis músicos tocam guitarra ou viola-baixo, mas também bateria, percussão, contrabaixo e violoncelo a par de mais dois violinos, num grupo que deu conta desde logo de uma enorme energia para uma noite que noite que prometia ser longa e de enorme qualidade.

De origem libanesa e ascendência arménia, Ara Malikian é um dos mais virtuosos violinistas da actualidade. Aos 50 anos de idade já gravou mais de 40 discos, formou uma orquestra e participou na produção de inúmeros espectáculos. Intérprete mas também compositor, Ara Malikian começou a tocar influenciado pelo seu pai, aos três anos de idade, herdando o violino do seu avô, natural da Arménia. Apesar da infância vivida em plena guerra civil libanesa, o talento de Ara Malikian permitiu-lhe acesso a prestigiadas escolas europeias, tendo tido lições com professores de renome. Construída a sua carreira, Ara Malikian é hoje possuidor de prestígio mundial, tendo já apresentado a sua música um pouco por todo o mundo, a solo ou a convite de diferentes artistas, compositores e orquestras.

Ara Malikian, contudo, e pelo que deixou claro também no palco do Salão Preto e Prata, não se limita a tocar, interpretando a música que sente e expressa em todo o seu corpo e que, com certeza, lhe está no sangue. Sem parar um segundo, toca, salta e dança, proporcionando ao público uma noite cheia de talento intercalado por muitas histórias divertidas partilhadas com os presentes que ficam sem saber se serão apenas momentos de boa disposição ou se terão um fundo de verdade. Certo é que Ara Malikian é um comunicador nato, um contador de histórias que entre a realidade e a ficção nos maravilha com as suas viagens, histórias e experiências que antecedem cada momento musical.

Desde o seu avô arménio que pouco falava, cuja família até julgava que teria paralisia facial, à sua incursão na Alemanha em que ganhou a vida ao longo de quatro anos a tocar música em casamentos judaicos, fazendo-se passar também ele por judeu ainda que involuntariamente, um lapso assumido numa “não conversa” entre o artista e alemães a quem Ara respondia com uma única palavra em que conseguia comunicar: “Si”. Passando para a sua vida pessoal, Ara recordou ainda o seu pai, um defensor dos clássicos como Bach, a par da sua irmã, uma amante de rock e dos Led Zepellin de quem Ara Malikian equilibrava um “poster” em cima da sua cama, alternando com o poster de Bach em prol da paz familiar, histórias que foram dando sempre espaço às músicas preparadas para este concerto que deliciaram o público sem dúvida cativado pela simpatia e boa disposição do violinista.

Em Londres, contratado por Boy George, num festival, conseguiu falhar o seu espectáculo em que deveria acompanhar o músico britânico quando se perdeu no recinto do festival em que se encontrava ao deter-se em frente a um palco secundário desse festival para ouvir Radiohead. Boy George dispensou nesse mesmo dia Ara Malikian, mas este ficou a conhecer aquela banda de rock, tornando-se seu fã e recolhendo ali mesmo a inspiração para mais um tema agora neste concerto.

Numa noite em que os nomes de músicos clássicos e outros mais ou menos contemporâneos foram marcando presença no palco do Salão Preto e Prata, ali trazidos pela música ou pelas histórias de Ara Malikian, eis que surge outro nome, alguém que Ara garantiu ter tido como ídolo. Falava o violinista libanês de John Travolta, de quem imitou mesmo alguns passos sobre o palco, deixando o mote para o que aí vinha — a música de Pulp Fiction. Ficção? Realidade? Pois, não sabemos, talvez um pouco de cada num mestre contador de histórias que encantou.

O alinhamento deste espectáculo trouxe de tudo um pouco, desde Bach a Paganini, passando por David Bowie, Led Zeppelin e Radiohead, chegando à “Valsa de Cairo”, um tema composto pelo próprio Ara Malikian e dedicada ao seu filho Cairo, de quatro anos, mas também a uma dança arménia em homenagem ao seu avô.

O concerto aproximava-se do final afirmando-se Ara Malikian disponível para estar ali toda a noite, algo que só não poderia fazer porque o porteiro do Casino tinha o filho doente com 41 graus de temperatura, a esposa aguardava a sua chegada e ele, porteiro, ainda teria que passar por uma farmácia de serviço para comprar medicamentos para a criança enferma. Por esta altura, e enquanto Ara Malikian ia desfiando mais esta história, sempre com um sorriso, o público estava completamente conquistado por este libanês que assume a sua carreira regendo-se por duas premissas:
— a música é para todos e todos devem ter-lhe acesso, quer seja clássica, quer seja popular;
— a música está em constante mutação, devendo absorver sonoridades de diferentes culturas, assimilando-as para a sua própria linguagem e composições.

Pela primeira vez em Portugal, e logo durante duas horas e meia de intensa energia, boa disposição e música de inegável qualidade, Ara Malikian conquistou o público do Casino do Estoril e prometeu regressar, despedindo-se, agradecendo a todos o carinho, e deixando desejos de paz, amor e “muita, muita, mesmo muita saúde para todos!”

No momento da saída, depois de mais de duas horas e meia de boa música e melhor disposição, e enquanto o público foi saindo do Salão Preto e Prata com um enorme sorriso, um sinal do agrado relativo ao concerto que acabara de ali ter sido permitido pelo Casino Estoril com a produção da UAU, ficou da nossa parte a convicção de que Ara Malikian poderá voltar sempre pois nós lá estaremos de novo, plenos de vontade de o ouvir e saborear as suas fabulosas histórias.

Ana Cristina Augusto
Jorge Reis (fotos)

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