Os tempos estranhos que vivemos levaram mais pessoas a recorrerem à leitura como companhia e como forma de ultrapassar os dias mais dificeis. Uns mantiveram os hábitos que já tinham e outros retomaram os perdidos criando novas dinâmicas e formas de evasão face ao novo cenário que o quotidiano nos oferece. Não é por isso de estranhar que a nossa sugestão da semana tenha sido o livro mais vendido, em Espanha, durante o primeiro período de confinamento... O Infinito Num Junco, de Irene Vallejo.

O livro conta... a história dos livros! Logo uma sugestão essencial para os amantes desta atividade tão nobre. Um livro permite-nos viajar pelo tempo e pelo espaço, pelas memórias do passado e até pelo futuro, pela realidade ou pela ficção; enfim, através das palavras é possível desbravar e conhecer o mundo de formas únicas e originais. Além disso, é-nos permitido também conhecer a História e as personagens nela envolvidas, o que pode, em alguns casos, ajudar a comprender a ordem mundial em que estamos inseridos.

Neste livro encontra-se o relato do “nascimento, da sua (NE: do livro) evolução e das suas muitas formas ao longo de mais de 30 séculos: livros de fumo, de pedra, de argila, de papiro, de seda, de pele, de árvore, de plástico e, agora, de plástico e luz”, de uma forma atraente e que incentiva à leitura.

No passar das páginas encontra-se um conjunto de histórias, experiências pessoais e referências literárias de sobeja relevância para a história mundial do livro. As referências a grandes eventos mundiais que contribuíram para a evolução do livro é uma constante e a prova de que se trata de uma ferramenta essencial de difusão de conhecimento e de estórias para todos.

Pode viajar-se pelos campos de batalha de Alexandre, o Grande, na Villa de Papiros antes da erupção do Vesúvio, nos palácios de Cleópatra, nas primeiras livrarias de que há conhecimento, nas celas dos escribas, que tanta importância tiveram para a história do livro, nas fogueiras onde arderam os livros proibidos pela Inquisição e num labirinto subterrâneo em Oxford no ano de 2000. Mas as referências não se ficam apenas pelo passado, a autora não esquece referências mais atuais como Twain, Borges, Faulkner, Vargas Llosa ou Tarantino e Scorsese. São mais de 400 páginas onde o livro é o personagem principal que faz as delícias de quem apreende um pouco mais sobre este objeto tão precioso.

Todos estes ingredientes, adicionados na respetiva altura à ordem mundial, oferecem um prato chamado Livro onde os cozinheiros são “contadores de histórias, escribas, ilustradores e iluminadores, tradutores, alfarrabistas, professores, sábios, espiões, freiras e monges, rebeldes, escravos e aventureiros”.

“A paixão do colecionador de livros é parecida com a do viajante. Toda a biblioteca é uma viagem; todo o livro é um passaporte sem data de caducidade. Alexandre percorreu as rotas de África e da Ásia sem se separar do seu exemplar da Ilíada, ao qual recorria, segundo dizem os historiadores, em busca de conselhos e para alimentar o seu afã de transcendência. A leitura, como uma bússola, abria-lhe os caminhos do desconhecido.”

...em 'O Infinito Num Junco', cap. 10, pág. 38 de Irene Vallejo, Bertrand Editora, 2020


Sobre a obra, o “El Mundo”, o “La Vanguardia” e o “The New York Times” consideraram este como um dos melhores livros de 2020. Já sobre Irene Vallejo, estudou Filologia Clássica e doutorou-se nas Universidades de Saragoça e Florença. Uma das suas principais caracterísricas é o facto de ser apaixonada pela mitologia Grega e Romana desde criança. Atualmente é escritora, colunista do “El Pais” e do “Heraldo de Aragón”, palestrante e promotora da educação e do conhecimento sobre o mundo clássico. Diariamente, partilha com o mundo a sua paixão pela Antiguidade, pelos livros e pela leitura.

Manter o livro vivo é um dos propósitos de todos os leitores e Irene Vallejo fá-lo de forma soberba nesta obra. A autora, publicada em Portugal pela Bertrand Editora, descreve  as peripécias deste objeto excecional que mantém vivas e alertas as nossas ideias, memórias, descobertas, sonhos, histórias e estórias. Tudo isto numa mistura perfeita e equilibrada de fluência, curiosidade que homenageia não só o livro como todos os leitores do mundo ávidos de ler cada vez mais e dscobrir o passado, o presente e até o futuro.

Leonor Noronha

Pin It