A Academia Sueca distinguiu na passada quinta-feira a poetisa norte-americana Louise Glück com o Prémio Nobel da Literatura 2020. Alguns dos seus poemas encontram-se traduzidos em antologias e revistas publicados no nosso país. O “Poder de Circe”, pode ser lido na antologia “Rosa do Mundo. 2001 Poemas para o Futuro”, da Assírio & Alvim, e a terceira parte de “A Paisagem” no número 12 da Revista “Telhados de Vidro”, da Editora Averno.

É a 16ª vez que o prémio é atribuído a uma mulher, a terceira a uma norte-americana e a primeira poetisa norte-americana a receber esta distinção. Louise é uma das mais importantes poetisas dos Estados Unidos da América cuja obra tem ganho, gradualmente, relevância em outros países.  A Academia deu destaque à sua "voz poética inconfundível, que com beleza austera, faz universal a existência individual".

A autora já tinha sido distinguida com outros prémios no passado: em 1993 venceu o Prémio Pulitzer, com a obra The Wild Iris, assim como outras distinções entre as quais a Medalha Nacional de Artes e Humanidades. 

A sua primeira obra publicada “Firstborn”, data de 1968 e, desde então, já publicou doze coleções de poesia. A mais recente intitulada “Faithful and Virtuous Night” arrecadou o National Book Award, nos EUA. Para os membros da Academia Nobel Louise Glück é uma das “poetisas mais proeminentes da literartura americana contemporânea”. 

Em Portugal ainda não há qualquer edição de nenhuma das obras desta autora, mas é possível que com o presente destaque esta lacuna seja rapidamente preenchida e todos nos possamos deleitar com os textos da mais recente laureada com o Nobel da Literatura.

rosa do mundo

Para aguçar o apetite dos mais curiosos deixamos um poema de Louise Glück já traduzido para português...

“O Poder de Circe” *

Nunca transformei ninguém em porco.
Algumas pessoas são porcos; faço-os
parecerem-se a porcos.

Estou farta do vosso mundo
que permite que o exterior disfarce o interior.

Os teus homens não eram maus;
uma vida indisciplinada
fez-lhes isso. Como porcos,

sob o meu cuidado
e das minhas ajudantes,
tornaram-se mais dóceis.

Depois reverti o encanto,
mostrando-te a minha boa vontade
e o meu poder. Eu vi

que poderíamos ser aqui felizes,
como o são os homens e as mulheres
de exigências simples. Ao mesmo tempo,

previ a tua partida,
os teus homens, com a minha ajuda, sujeitando
o mar ruidoso e sobressaltado. Pensas

que algumas lágrimas me perturbam? Meu amigo,
toda a feiticeira tem
um coração pragmático; ninguém

vê o essencial que não possa
enfrentar os limites. Se apenas te quisesse ter
podia ter-te aprisionado.

*Título original Circe’s Power, publicado originalmente na coletânea Meadowlands em 1969. A tradução portuguesa é de José Alberto Oliveira e faz parte da Antologia Rosa do Mundo. 2001 Poemas Para o Futuro, editado pela Assírio & Alvim, que aualmente está esgotada. 

José Saramago, o Nobel Português da Literatura

A 8 de outubro de 1998 quando a Academia revelou o nome do laureado desse ano para o Nobel da Literatura, Portugal ficou ao rubro. O nome de José Saramago, amado por uns e odiado por outros, deu ao escritor e ao país um galardão há muito desejado. Para a Academia esta distinção foi atribuída ao escritor “que com parábolas sustentadas pela imaginação, compaixão e ironia nos capacita continuamente mais uma vez a apreender uma realidade elusória”.

O “Memorial do Covento”, talvez a obra mais conhecida de Saramago, chegou ao público em 1982 e conta a história de Blimunda e Baltasar com uma perspetiva histórica, social e individual muito próprias e bem misturadas, criando um enredo intenso que convida a conhecer todo o seu desenvolvimento de forma natural e entusiasmante. O sucesso desta obra foi tal que o compositor italiano Corghi baseou a ópera, de sua autoria, “Blimunda” neste romance.

memorial convento

A obra de Saramago é vasta, além dos romances podem ler-se ensaios, peças de teatro e diários. Todos com estilos próprios e inconfudíveis que de acordo com a Academia Sueca invocam, de acordo com o texto que acompanhou o anúncio do prémio, “a tradição de uma forma que no estado atual das coisas pode ser descrito como radical”.

Em 2008, o realizador holandês George Sluizer levou à tela um filme baseado no título “A Jangada de Pedra” no qual, após um sismo, a Península Ibérica se separa do resto da Europa e anda à deriva pelo Oceano Atlântico.

De entre os vários títulos que consagraram o escritor português, Fernando Meirelles, o realizador brasileiro, optou por levar ao grande écran “Ensaio Sobre a Cegueira”. A obra conta a história de uma epidemia de cegueira branca que contamina toda a população de uma cidade, o que causa grandes alterações tanto ao nível pessoal e familiar de cada um como nas estruturas sociais existentes. Há até quem compare o momento atual que vivemos no mundo com esta história narrada por José Saramago.

As obras do Nobel português têm sido aclamadas, apreciadas e elogiadas por todo o mundo. Prova de que Saramago ficará para sempre no historial da literatura nacional e internacional é o facto de a sua obra continuar a agradar aos cineastas que continuam a fazer filmes com base nos seus romances. Atualmente, pode assistir-se nas salas de cinema à adaptção de “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, com a realização do cineasta português João Botelho. A trama desenvolve-se à volta do regresso do médico Ricardo Reis à Lisboa de 1935, após uma ausência de 16 anos, quando o fascismo se está a instalar e a desenvolver na sociedade sob um clima de terror e sombrio que, se antevê, instalar-se-á por toda a Europa. 

Fica a referência a dois Nóbeis da Literatura na semana em que o mais recente foi conhecido.

Boas leituras!

Leonor Noronha

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