Com uma exibição medíocre, assinada por uma equipa construída com algumas segundas escolhas do plantel do Benfica em estreia absoluta na equipa encarnada, como Tomás Tavares, que entrou para o lugar de André Almeida, e outros que esta época quase não têm aparecido em jogo, como Cervi ou Jota, que relegaram para o banco Rafa e Seferovic, num "onze" surpreendente para aquele que foi o primeiro jogo da turma da Luz na edição de 2019-2020 da Liga dos Campeões, o Benfica acabou derrotado frente ao bem mais poderoso Leipzig (1-2), num jogo sempre controlado pela equipa alemã.

Na verdade, o Leipzig acabou por ter a sua tarefa facilitada pela forma como o Benfica se apresentou em campo, com uma equipa sem automatismos, que nunca ganhou a segunda bola, perdeu sempre a luta no meio-campo, e só nos últimos minutos da partida pôde dar uma imagem aproximada do seu valor, quando Rafa e Seferovic foram chamados à equipa quando esta perdia já por dois golos.

Com Bruno Lage a cumprir castigo imposto pela UEFA ainda decorrente de uma expulsão no último compromisso europeu da pretérita temporada, coube ao adjunto Nélson Veríssimo orientar a equipa do Benfica, um "onze" surpreendente que esgeve muitos furos abaixo, por exemplo, do que conseguiu na última jornada da Liga NOS, frente ao bem mais modesto Gil Vicente, quando muitas vezes nem deixou a turma de Barcelos respirar tal foi a pressão colocada sobre o adversário dentro das quatro linhas. Desta vez, porém, frente ao Leipzig, Com Fejsa e Taarabt no meio campo, e com Jota a jogar nas costas de Raul De Tomás, o Benfica apareceu em campo a defender demasiado encostado à área de baliza de Vlackodimos, sem conseguir partir com acerto nas transições ofensivas.

Tomás Tavares, jovem da formação da Academia do Seixal que apareceu neste jogo pela primeira vez na sua carreira a titular logo num jogo da Liga dos Campeões, na verdade nem comprometeu, acabando por ser os bem mais experientes Ferro e Rúben Dias a permitirem os espaços nos quais o Leipzig viria a construir o primeiro golo ao minuto 60, por Timo Werner, o melhor elemento em campo da turma germânica. Acabou assim por ser no meio campo e na linha mais adiantada que a equipa do Benfica acabaria por se revelar permeável e nada eficaz. Taarabt ainda mostrou apontamentos de qualidade, mas à frente dele Jota foi sempre um elemento a menos, e Raul De Tomás, apesar de esforçado, continua sem aquela estrelinha da sorte que qualquer avançado procura para ajudar à marcação dos tão desejados golos. Aliás, a propósito de De Tomás, ficou na retina de quem viu o jogo o avançado espanhol a levantar as mãos para os céus implorando por maior inspiração divina que o ajude a conseguir o golo que ainda não fez com a camisola do Benfica.

Tendo Raul De Tomás aparecido ainda assim neste jogo em terrenos bem mais adiantados comparativamente com o que já o havíamos visto em jogos anteriores, também porque tendo jogado antes com Seferovic pisou sempre terrenos mais recuados do que o internacional suíço, a verdade é que De Tomás nem assim conseguiu ser eficaz, também porque nunca foi bem servido por Jota, nem tão pouco pelos dois alas neste jogo, nomeadamente Pizzi, particularmente apático enquanto esteve em campo, ele que acabou por dar o seu lugar a Rafa aos 76 minutos, e ainda Cervi, que jogou sempre mais com a preocupação de fechar o seu corredor defensivo à frente de Grimaldo do que em conseguiu lançar o jogo ofensivo que o Benfica não teve. Também Cervi acabou por ser substituído, também aos 76 minutos, por Seferovic, aqui com o Benfica a procurar reconstruir uma equipa que desde o início do jogo, por força das opções de Bruno Lage, havia surgido no relvado da Luz sem equilíbrio nem capacidade para fazer frente ao adversário.

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E porque quando as coisas correm mal só podem correr ainda pior, a verdade é que quase no lance seguinte às entradas de Rafa e Seferovic, o Leipzig conseguiu o segundo golo, num lance validado pelo VAR depois do árbitro auxiliar ter assinalado um fora-de-jogo a Sabitzer, o jogador da turma germânica que acabaria por fazer a assistência para o segundo golo de Timo Werner. O Benfica perdia agora por dois golos, com onze minutos mais a possível compensação a dar pelo árbitro como o tempo em que tudo teria que acontecer. Seferovic, que entretanto se juntou a Raul De Tomás — Jota já tinha deixado as quatro linhas ao minuto 67 para a entrada de David Tavares —, ainda fez o golo do Benfica mas a verdade é que a equipa da casa não conseguiu (nem mereceu) mais tal foi a ausência de ideias nos pupilos de Bruno Lage. Seferovic, quando marcou o golo, meteu o dedo junto aos lábios mandando calar os adeptos, porventura aborrecido com aquilo que tem sido dito dos inúmeros golos que também ele tem falhado, mas a verdade é que a sua veia goleadora neste jogo ficou mesmo por ali, acabando o Benfica por perder este jogo de estreia na Champions de algum modo por culpa própria.

Sem conseguirem nunca conquistar a segunda bola, com imensos passes errados, entregando o meio-campo ao adversário, os jogadores do Benfica não mereceram mais e só se poderão queixar deles próprios, mas também do técnico Bruno Lage, que apostou em rodar os jogadores, querendo provar que neste Benfica contam mesmo todos, mas debilitando desse modo a equipa que acabou por ser construída por elementos sem automatismos entre si, que tão depressa faziam passes para a entrada dos companheiros como a seguir colocavam a bola nas costas dos jogadores que eram assim obrigados a travar a marcha ou mesmo a recuar. Passes falhados acabaram assim por ser “às pazadas”, num jogo em que o Benfica acaba por entrar com o pé esquerdo nesta temporada da Liga dos Campeões, perdendo com o adversário que, ainda assim, se apresenta porventura como a equipa mais forte neste grupo G da Champions.

Benfica Leipzig 02

A propósito do Leipzig, aliás, garantiu uma vitória que fez por merecer num jogo em que o Benfica nunca conseguiu equilibrar os acontecimentos. É certo que o Benfica teve oportunidades para marcar bem mais cedo na partida, nomeadamente por Cervi que não poderia perder uma oportunidade como aquela que teve quando apareceu isolado frente ao guarda-redes Gulácsi, mas também é verdade que foi sempre a turma do Leipzig quem ganhou sempre a segunda bola, construiu melhor, chegou aos golos com mais assertividade e mereceu o triunfo. Jota nunca esteve no jogo, Raúl de Tomás acumulou faltas e passes errados, Fejsa não apoiou Taarabt no meio-campo como era devido e mesmo o médio marroquino insistiu sempre em discutir a posse de bola no confronto directo com os adversários e nem sempre se saiu bem nessas situações.

O Benfica de dimensão europeia que o presidente Luís Filipe Vieira prometeu aos adeptos encarnados, simplesmente não apareceu esta terça-feira no relvado da Luz, onde acompanhámos uma equipa que mais parecia estar apenas a cumprir calendário, já abdicando de qualquer ambição para a Liga dos Campeões e preferindo apostar todas as fichas no campeonato português. Os adeptos do Benfica não gostaram de ver este “pior” Benfica frente ao bem melhor Leipzig, e Bruno Lage vai ter mesmo que emendar o rumo dos acontecimentos, ficando por saber para já se o conseguirá fazer. A ver vamos...

texto: Jorge Reis
fotos: Luís Moreira Duarte

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