Uma cambalhota no marcador perante um Estádio da Luz lotado, à beira dos 64 mil espectadores, foi o feito do FC Porto que impôs ao Benfica a segunda derrota da presente época no campeonato, a primeira das quais no reduto benfiquista. Depois de Diogo Costa ter assinado um auto-golo na sequência de um remate de Gonçalo Ramos à trave, em que a bola bateu nas costas do guardião portista e entrou na baliza, aos 10 minutos do jogo, foi a vez de Matheus Uribe, ao minuto 45, e Mehdi Taremi, ao minuto 54', a darem a volta ao resultado, permitindo a vitória para o FC Porto, num jogo em que os Dragões foram sempre superiores e venceram como outrora Jorge Jesus afirmou, quando era treinador dos encarnados, “limpinho, limpinho.”

Com uma exibição cinzenta e apática, procurando apostar nas transições mas nunca assumindo o controlo da partida nem das iniciativas do jogo, o Benfica esteve muito longe daquilo que já conseguiu na presente temporada, frente a um FC Porto dominador, que teve sempre o jogo controlado mesmo depois dos encarnados terem conseguido o primeiro golo do jogo. Os pupilos de Sérgio Conceição nunca se remeteram ao seu meio-campo e, ao invés, procuraram sempre jogar adiantados no terreno conseguindo quase sempre a posse da segunda bola nos lances divididos, acabando por justificar o triunfo que foi pela diferença mínima, mas que poderia ter tido outros contornos.

Aliás, o FC Porto viu um golo ser anulado por um fora-de-jogo de seis centímetros de Galeno, logo depois do golo soberbo de Matheus Uribe no tento do empate, ao minuto 45', após um passe de peito de Pepê. O golo de Uribe, aliás, aconteceu já depois de outro possível golo, por Manafá, ter sido anulado por uma falta que o árbitro Artur Soares Dias assinalou por suposta carga de Taremi sobre Vlachodimos. A verdade é que o jogador iraniano choca com o guardião grego do Benfica quando este tinha a bola nas mãos, mas também é verdade que o choque ocorreu fora da pequena área, a zona de defesa do guarda-redes, e Vlachodimos liberta a bola na sequência do choque permitindo a intervenção de Manafá. Soares Dias entendeu que a carga de Taremi foi merecedora de sanção, pelo que daqui nada resultou em termos práticos no marcador.

1-1 ao intervalo com o FC Porto ao ataque

Depois do intervalo, quando se esperaria que o Benfica regressasse ao jogo mais determinado, foi o FC Porto quem continuou a jogar no meio-campo contrário, com Diogo Costa a ser muitas vezes o único elemento no seu meio-campo, e o segundo golo dos azuis-e-brancos surgiu naturalmente, ao minuto 52, por Taremi, a aproveitar da melhor forma uma falha de marcação de António Silva e a enviar a bola até ao fundo das redes sem que Vlachodimos pudesse fazer algo para impedir que o FC Porto se colocasse em vantagem no marcador.

Num jogo em que o Benfica pôde apresentar o seu melhor “onze”, com Vlachodimos atrás de uma linha defensiva com Grimaldo, António Silva, Otamendi e Bah, surgindo Chiquinho e Florentino no “miolo” atrás de uma linha de três jogadores mais ofensivos, formada por João Mário, Rafa e Aursnes, ficando Gonçalo Ramos mais adiantado, acabou por ser do lado do FC Porto que surgiram maiores “novidades” na formação titular escolhida por Sérgio Conceição.

O médio Pepê, que em tantos outros jogos já alinhou como defesa lateral, surgiu frente ao Benfica como um extremo direito no apoio a Taremi, com este na frente de uma linha média preenchida por Grujic, Otávio e Uribe, sobrando Galeno para o corredor esquerdo e muitas vezes em incursões para dentro ao lado do avançado iraniano. Atrás, na defesa à baliza de Diogo Costa, com Manafá e Wendell nas alas, surgiram Ivan Marcano e Pepe como centrais, com este a assinar a exibição mais acertada e esclarecida do final de tarde na Luz, fazendo impor a sua grande experiência na equipa portista e, igualmente importante, em clássicos frente ao Benfica.

Do lado da equipa da casa, nota de destaque para a lesão do dinamarquês Bah ao minuto 26, ele que deu o seu lugar a Gilberto e que não deverá estar apto para o jogo do Benfica na próxima terça-feira, na recepção ao Inter de Milão, na primeira mão dos quartos-de-final da Liga dos Campeões. Gilberto foi assim a solução de recurso para o corredor direito, mas não se poderá dizer que foi por causa deste imprevisto que Roger Schmidt teve mais trabalho, até porque o técnico alemão acabou por fazer apenas três alterações em toda a partida e Gilberto nem sequer comprometeu, conseguindo mesmo estar ao nível dos seus companheiros e com menos erros determinantes.

No segundo tempo, Sérgio Conceição chamou a jogo João Mário, Eustáqui, Zaidu, Fábio Martinez e Fábio Cardoso, que renderam, respectivamente, Manafá (57'), Grujic (57'), João Mário (72'), entretanto lesionado depois de ter entrado ao intervalo, Wendell (72') e Taremi (88'). Enquanto isto, do outro lado, e depois de ter sido forçado a uma alteração no primeiro tempo, com a lesão de Bah ao minuto 26, que resultou na entrada de Gilberto, Roger Schmidt, na equipa do Benfica, mexeu apenas em duas pedras, com as saídas de Florentino e Rafa, respectivamente aos 56 e aos 88 minutos, para as entradas de Neres e Petar Musa.

Horizonte mais complicado para o Benfica

O FC Porto acabou assim por vencer um jogo que se apresentava como decisivo para o Benfica, que poderia colocar uma pedra sobre a discussão do campeonato, acabando os dragões por reabrir a luta pelo título, numa altura em que os encarnados ficam com sete pontos de vantagem sobre os azuis-e-brancos mas com um calendário bem mais complicado para o líder. Recorde-se que o Benfica terá ainda que defrontar o Sporting e o Sporting de Braga nesta fase final do campeonato, isto para além de ter ainda que concentrar esforços nos jogos da Liga dos Campeões, nomeadamente nos próximos dois jogos frente ao Inter de Milão. Será, aliás, frente à turma italiana que o Benfica poderá reencontrar o caminho das vitórias e das boas exibições já na próxima terça-feira, uma vez mais no Estádio da Luz, em partida da primeira mão dos quarto-de-final da competiçãõ milionária.

Olhando para o calendário, o Benfica tem ainda na I Liga as deslocações aos terrenos do Chaves, Gil Vicente, Portimonense e Sporting, prometendo três jogos difíceis e um quarto jogo de grau superlativo de dificuldade, tendo ainda que receber no Estádio da Luz as visitas do Estoril-Praia, Sporting de Braga e do Santa Clara. Pelo meio, o Benfica terá que realizar ainda mais dois jogos para a Liga dos Campeões, numa caminhada que, se as coisas correrem bem para o lado dos encarnados, poderão transformar-se em cinco jogos, por certo todos eles difíceis e exigentes.

E se os mais optimistas poderão antever a conquista do título da I Liga e de um possível triunfo glorioso na Liga dos Campeões para o Benfica, os pessimistas estarão a roer as unhas face a uma eliminação na Champions e um desaire no campeonato português, o que a acontecer seria uma época afinal desastrosa para o clube da Luz, para Roger Schmidt e para Rui Costa.

Já em relação ao FC Porto, que por esta altura disputa apenas competições caseiras, nomeadamente o campeonato da I Liga e a Taça de Portugal, tem um teoricamente um calendário mais facilitado, com as deslocações aos terrenos do Paços de Ferreira, Arouca e Famalicão, recebendo em casa o Santa Clara, Boavista, Casa Pia e Vitória de Guimarães. Sendo certo que o FC Porto perdeu pontos na presente época em jogos nos quais poucos esperariam que isso acontecesse, será fácil admitir que a turma às ordens de Sérgio Conceição, depois de ter recebido o tónico permitido pelo triundo na Luz frente ao líder do campeonato, tem condições para uma fase final plena de vitórias no presente campeonato da I Liga.

texto: Jorge Reis
fotos: Luís Moreira Duarte
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